• A MULHER COMO PROTAGONISTA DE MUDANÇAS SOCIAIS
Autora: Márcia Regina Machado Melaré

Este artigo visa discorrer um pouco sobre o papel da mulher em nossa sociedade, na crença de que tenho o dever – como mulher, como advogada, como Vice-Presidente da maior Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil e como cidadã – de analisar a atual condição feminina e os valores por ela encarnados para a construção de uma civilização mais igualitária, mais solidária e mais democrática.

Constituindo metade da população brasileira, somando mais de 40% de sua força de trabalho, sendo um pouco mais da metade do eleitorado, nós, mulheres, exibimos inarredável orgulho de proclamar que já não somos o sexo frágil, bastando distinguir a presença da mulher nos mais diferentes espaços da sociedade, abrindo frentes de luta, agindo na esteira da mobilização social, procurando remodelar as estruturas de poder na moldura social, determinando sensíveis mudanças no que concerne à igualdade de direitos e enfrentando preconceitos e temas candentes, até então proibitivos, como o direito à educação sexual de adolescentes, o aborto, a sexualidade feminina, a contracepção, o controle do corpo, o homossexualismo, entre outros.

A fisionomia do novo Brasil estampa o perfil de mulheres decididas, fortes, corajosas, atuantes, pró-ativas, defendendo direitos até então restritos aos homens, ocupando cargos públicos nas diversas esferas da política e da administração, liderando campanhas, dirigindo empreendimentos.

A palavra de ordem – IGUALDADE – sobrepõe-se a uma palavra em processo de inanição: subordinação.

Inspira-nos o princípio: "Não basta afirmar que homens e mulheres são iguais perante a lei, é imprescindível fixar em que termos essa igualdade é comprovada e desenvolvida". Assim como firme é a convicção de que a mulher ocupa hoje um papel central na vida brasileira.

Vejam a grandeza do salto no mercado de trabalho. Há 65 anos, a mão-de-obra feminina correspondia a somente 19% da força de trabalho brasileira. Hoje, as mulheres ocupam cerca de 42% do mercado.

No campo do comando empresarial, cerca de 16% das empresas são presididas por mulheres, o dobro do percentual registrado há dez anos.

Na área que tenho imenso orgulho de integrar, a advocacia, as mulheres passam a ter participação fundamental: 52% dos profissionais da advocacia são mulheres.

Este é um claro sinal de mudanças no mercado, nos valores culturais, nos padrões comportamentais, na comprovação definitiva de que a mulher passou a acreditar em seus potenciais criativos e intelectuais para galgar degraus em campos historicamente dominados por homens. O desejo de manter-se independente, inclusive financeiramente, leva a mulher a buscar espaço no mercado com muita força e vontade e sem abrir mão de seu papel feminino, a ela inerente, de mãe, de esposa, de avó.

São valorosas as mulheres que, hoje, desempenham a famosa jornada dupla. Aliás, não mais dupla, mas múltipla e diversificada.

Porém, o preconceito ainda existe, muitas vezes velado, refletindo-se, por exemplo, na remuneração. Em geral, as mulheres ainda ganham 10% a menos que os homens, mesmo ocupando as mesmas funções.

Há, também, outras barreiras e dificuldades que se apresentam cotidianamente às mulheres: os assédios sexual e moral continuam sendo uma dura realidade, razão pela qual temos orientado as nossas ações e mobilizado as nossas energias para construir uma sólida base educacional. A educação é a arma principal contra os preconceitos. E cabe a nós, mulheres, atuarmos como protagonistas de nossa própria valorização pessoal e profissional.

Nessa trilha, a Ordem dos Advogados do Brasil tem liderado ações e iniciativas visando à promoção da condição feminina, promovendo cursos e discussões, onde as mulheres se preparam para atuar politicamente e mostrar seu talento no espaço do mercado.

Na esfera política, ouso dizer que o papel da mulher será absolutamente transcendental para a eficiência da matriz política e aperfeiçoamento dos padrões e comportamentos políticos.

Sem querer cometer injustiças contra a fibra dos homens e reconhecendo os valores da decência, da nobreza, da seriedade, do compromisso com a coisa pública e da dignidade, que se fizeram presentes na história de muitos políticos brasileiros, em todos os ciclos de nossa história, lembro que a mulher detém, pelas qualidades intrínsecas ao gênero, princípios que, seguramente, se apresentam como absolutamente necessários em uma moldura de crise como a que estamos, nesse momento, vivenciando em nosso país, tais como o zelo, a preocupação com os detalhes, com a probidade, com o bom exemplo, enfim, uma base moral e ética que integra de forma sistêmica a própria condição feminina.

Por isso as mulheres devem se mobilizar para preencher as vagas que lhes são destinadas na esfera pública e nas suas respectivas corporações, favorecendo um ambiente político plural e efetivamente democrático.

Conclamo, assim, a manutenção de nossa intensa mobilização em todos os setores e a participação em todos os debates, exercitando a força feminina no desenvolvimento de mudanças sociais.


Márcia Regina Machado Melaré é advogada e vice-presidente da OAB/SP.

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